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quarta-feira, novembro 08, 2006

raiz pé de diabo 

Prólogo

a tília olha-me como um gato
um raio
um último beijo branco despedaçando
nuvens sobre a terra – asas

sobre ti sobrepus as minhas asas e tive medo
nuvens brancas das chuvas
baptismais com que ainda te abraço

a tília
mergulha
num pélago de inumeráveis pálpebras
e o amor é cada vez mais forte
..........indelével
peixes e homens cansados procuram salvar-me
a tília
na sua quietude verde tenta lançar-me os braços
digo a mim próprio que amor não morre
..........e sei que não morre
sinto-o no mais fundo amplexo de ar que
..........os pulmões oferecem à vida
mas eu sim – e renascerei
renascerei nesta mesma cadeira
olhando esta-outra tília
virei à superfície como uma caravela muito antiga
e terei asas de ouro – esse é o meu voto

renascerei
sim
mas com asas de ouro
estas brancas com que te cobri
ficarão suspensas no éter para te aquecer
mesmo que pareçam chuva
mesmo que não as reconheças como asas
mesmo que chova a água pura deste inverno onde tudo é lonjura
..........lágrima e alegria
e uma felicidade plena e oculta

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

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raiz pé de diabo 

# 25
sanctus et benedictus qui venit
para ardavan kamar – sacret persian music over the wind

este é o meu último poema
aqui invoco a beleza última e íntima
dos pássaros chineses
o olor a sândalo
..........sagrado e triste
a vibração divina de um santur
..........som de um antiquíssimo iraque
a pele do amor
o toque na pele do amor
tudo o que se perdeu
aqui invoco a beleza derradeira dos navios
...........dos marinheiros
....................das amarras
aqui me despeço do tejo e da esmeralda partida de dom sebastião
e tomo refúgio nas lágrimas de inês

este é o meu último poema
frente a um altar de pedra direi em voz baixa:
santur
santur
santur

senhor deus dos anjos
cheios estão os céus e a terra da tua glória


glória a ti no altíssimo

bendito seja aquele que vem em nome de… … …

+ hosana nas alturas


aqui
frente a todos vós
..........minhas doces testemunhas
partirei para um outro lugar ocidental
onde o incenso não arda
o pensamento não ascenda
os sentidos se extingam
as mãos se recolham
o corpo se liquidifique

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

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raiz pé de diabo 

# 24

esta rua
tão agitada durante o dia
à noite
torna-se leve e sombria
e as árvores são uma espécie de morcegos angélicos
visitando o claustro
se alguém soubesse espreitar para dentro de mim
saberia como é de noite que as borboletas
enchem o meu pensamento
..........a crisálida se rompe
..........e todo o peso se aligeira deixando-me voar
hoje
monge desta estrada a que chamo convento
........convento dentro de mim
........sem abade
........sem mestre
........sem beijo
a rua transforma-me
e faz-me melhor do que sou (por breves horas)

hoje
monge
nesta rua entre as rosas e a cruz
lembro-me de ti e sei-te tão distante
do amor como eu das estrelas

a meio da noite
na camarata
em sonhos rangem as fechaduras

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

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