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sábado, abril 02, 2005

quarenta romances de cavalaria # 24 

# 24 – sábado

A PRIMEIRA FRASE ou o tom do romance o meu amigo confessou-me que tinha encontrado a voz do seu próximo romance já ontem tinha lido numa entrevista um outro romancista dizendo que acabara de encontrar o tom do seu novo romance e muitos outros romancistas fizeram esta declaração de audiovidência parece então um dado adquirido que os romancistas pressentem uma voz que precede a redacção da primeira palavra de um romance os teólogos são peremptórios ao afirmar que a audiovidência é um dos sinais da santidade se isto é verdade os romancistas são potenciais doutores da igreja dos sentidos contrariamente os poetas são rodeados por um tenebroso silêncio antes do poema e depois do poema não existe durante no poema há o antes há o poema e há o depois o único sentido que é despertado antes do poema é o olfacto pois durante o momento em que reina esse silêncio sepulcral sente-se um intenso odor a borboletas amarelas mais nada nem um sopro uma luz uma música uma vibração que seja exterior à morte do poeta antes do poema o poeta morre transformando-se num insecto com enormes asas de que prescinde para apenas rastejar na tinta alimentado por um pólen que não entra nele que não está para além dele que não existe porém há depois do poema podem registar-se poderosas temperaturas astrais movimentos brutais no magma marítimo a crosta terrestre pode romper-se o sol expandir-se a lua tornar-se masculina podem registar-se fenómenos de toda a espécie inomináveis e inconcebíveis pode dar-se tudo mas depois do poema nada abalará o silêncio dos poetas que os levará ao próximo poema_

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