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terça-feira, março 22, 2005

quarenta romances de cavalaria # 13 

# 13 terça-feira

A NOSSA VIDA tenho a sensação de estar acordado mas não estou a nossa vida a nossa vida a nossa vida passo o tempo a organizar a vida diz-se a nossa vida como se a vida fosse a nossa vida estou sentado a escrever mas tão profundamente adormecido que o sonho é incapaz de emergir dos meus ossos encefálicos a nossa vida a nossa vida a nossa vida e tudo o que existe não passa de uma pedra gigante em cima de um mosquito já nem as sirenes dos navios me despertam deste esmagamento deste sono continuo que se arrasta de solstício a solstício equinócio a equinócio não há dúvida sou um belo pedaço de estrume correctamente programado para as funções humanas ajo até com relativa autonomia lavo-me visto-me calço-me tenho asas e saio à rua como se não tive asas mantenho o nariz rasteiro ao chão quando nossa senhora passa sei esconder a minha brancura com um invejável à-vontade deixei os olhos turvarem-se como águas de um tanque abandonado às rãs e ao húmus bacteriano durante algum tempo durante bastante tempo mesmo pensei que estivesse alguém algum grupo qualquer estrutura organizada por detrás desta minha existência fúnebre hoje sei que estou verdadeiramente só neste enredo mas como tenho a sensação de estar acordado apesar de não estar não sinto sequer a necessidade de despertar deixo-me levar nesta teia de sonâmbulas clarividências parece-me tão real este estado de iluminação que olhando-me no espelho do sono vejo à transparência os órgãos as veias o coração parado o sangue a endurecer com a idade quando na verdade se acordasse e me visse no espelho do sonho nem seria capaz de vislumbrar uma simples silhueta do corpo tão invisível me tornei a nossa vida a nossa vida a nossa vida e quando estou à beira do rio e tenho a oportunidade de me atirar e estou quase a atirar-me vem logo a sensação de que já me atirei de que já estou a afogar-me sem estar e fico colado ao cais sentindo todas as dores do afogamento poderia estar no cume de uma montanha e saber que se batesse as asas teria a visão dourada de um voo real de águia de anjo de ícaro e não me moveria um centímetro tal não seria o poder da ilusão de estar já ao pé do sol sempre que estou perto de uma realização capaz de me dar vida e alma e reacender o coração o sono sussurra-me em repetições infindas que já vi tudo que já vivi tudo que nada na vida pode haver que não seja uma repetição pateta do passado em poucas palavras sou um dragão que se auto-paralizou ingiro defeco micto ingiro defeco micto amarrado à nossa vida à nossa vida à nossa vida e ao peito à distância de um pequeno gesto tenho a jóia o centro luminoso cor-de-rubi que me resgataria desta cama e estou impotente_

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