domingo, março 21, 2004
DOL-U-RON Forte # 18
"the essential is no longer visible" - Heiner Müller
regressei e
não encontro o meu berço
nem o rato
nem o relâmpago magnifico
das cordas de saltar
nem os panos da cozinha nem
a cómoda do quarto do meu pai
não encontro o corredor
e as portas das salas
à esquerda
de
quem
entra
o meu berço –
quem ficou com as minhas coisas?
os livros, as toalhas, os relógios, a magnólia, o tambor?
eu regressei
não me esperavam?
és tu, branca, que tens os meus colares e
os rosários e os missais da avó?
havia uma santa chinesa, uma deusa chinesa
na estante
preta
da
sala
és tu, branca, que tens a deusa?
o meu berço era escuro
feito por um operário metalúrgico
um homem do barreiro
ele
fez
o meu berço escuro
ele
desenhou em ferro forjado
cada malha
da guarda
para eu não cair
– eu que ainda não nascera –
esse berço
feito pelas mãos de um operário do barreiro
és tu, branca, que o tens?
o meu berço de amor operário
és tu, branca, que o tens?
terão guardado as minhas coisas depois das cheias?
depois das águas que me inundaram?
alga, és tu?
regressei e
não encontro o meu berço
nem o rato
nem o relâmpago magnifico
das cordas de saltar
nem os panos da cozinha nem
a cómoda do quarto do meu pai
não encontro o corredor
e as portas das salas
à esquerda
de
quem
entra
o meu berço –
quem ficou com as minhas coisas?
os livros, as toalhas, os relógios, a magnólia, o tambor?
eu regressei
não me esperavam?
és tu, branca, que tens os meus colares e
os rosários e os missais da avó?
havia uma santa chinesa, uma deusa chinesa
na estante
preta
da
sala
és tu, branca, que tens a deusa?
o meu berço era escuro
feito por um operário metalúrgico
um homem do barreiro
ele
fez
o meu berço escuro
ele
desenhou em ferro forjado
cada malha
da guarda
para eu não cair
– eu que ainda não nascera –
esse berço
feito pelas mãos de um operário do barreiro
és tu, branca, que o tens?
o meu berço de amor operário
és tu, branca, que o tens?
terão guardado as minhas coisas depois das cheias?
depois das águas que me inundaram?
alga, és tu?