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quinta-feira, novembro 06, 2003

PRAXES E PROPINAS 

Para José Pacheco Pereira (Abrupto)

Évora à noite costuma ser uma cidade de fantasmas e sombras de vampiros (que, como se sabe, não têm sombra, coisa de alentejanos). A cidade tumular que durante o dia assume o aspecto de monumento à desesperada tentativa de encontrar no passado o que não se sabe criar para o presente, torna-se à noite num lugar sem tempo, onde seria possível encontrar gente de todas as épocas, mortos e vivos a lamberem-nos o presente, atormentando-nos os sonhos com imagens de inquisidores, carrascos e poetas desesperados no seu encontro com a morte.

Numa destas madrugadas, junto à praça onde na idade média se acendiam as figueiras do santo ofício e hoje, simbolicamente, brota a agua de uma fonte. Dois rapazes de "meia idade", diria pelos seus 24, 25 anos, ajeitavam as suas capas e batinas. À sua volta algumas raparigas digladiavam-se para os ajudar a endireitar os colarinhos. Uma gritava pelo seu direito de preferência, gritava pelo seu direito de "afilhada" do "doutor". Assim mesmo: "- Eu é que o ajudo porque ele é o meu padrinho!". As outras cederam e afastaram-se. A matilha respeita sempre os direitos e garantias da espécie. No fim atacou-lhe os sapatos. Ainda gritaram mais uma tantas coisas e foram-se Porta-Nova fora. Ao longe ainda os ouvi grunhir umas notas de uma conhecida canção dos "beach-boys". A cidade voltou ao seu silêncio sepulcral.

Na manhã seguinte a Associação de Estudantes fechava a cadeado as portas dos edifícios da Universidade de Évora. Um dos edifícios, perto da minha casa, acumulava uma série de "doutores", empenhados na causa da luta contra as propinas. Devo dizer que em relação às propinas, a minha opinião é que nem máxima nem mínima. O que é tramado é que um dos porta-voz da "luta" nesta cidade tinha estado na noite anterior a deixar-se arrumar no colarinho e em êxtase alcoólico observando, de cima, a cabecinha da sua "afilhada" a apertar-lhe os sapatos. E no meio das palavras de ordem e das justas reivindicações de um ensino universal e gratuito, lá andava a mocinha a dar mimos ao "padrinho".

O "doutor" gritava à menina: "- Ó (nome) vai buscar as chaves do carro". "Anda cá coisinha, anda dar beijinhos ao teus doutores".

A questão que se põe, é que para que uma luta ser séria tem necessariamente que ser protagonizada por pessoas genuinamente sérias. Quem são estes senhores e senhoras que conduzem as lutas contra as propinas? É que é evidente a minoria que representam os militantes do associativismo estudantil com verdadeiro empenhamento político, com genuínas preocupações sociais. Eles existem e trabalham. Mas que força tem o seu exemplo perante tamanha animalidade?

Que credibilidade pode ter um movimento social que age nos intervalos de sucessivas sessões de humilhação? Será possível gritar por direitos montado nas costas de um colega a fazer de cão?

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