segunda-feira, novembro 03, 2003
Leituras: Jornal Combate
Leituras 1
O PSR, Partido Socialista Revolucionário, comemora 30 anos de vida. Está, por assim dizer de parabéns. Pois parabéns! Ao que parece vai organizar um jantarinho para comemorar o evento. É na Voz do Operário, Sábado, 20 de Dezembro. Não basta aparecer é preciso comprar uns bilhetes primeiro. Os interessados e interessadas, devem telefonar para o 218864643.
Leituras 2
Na edição de Outubro publica-se a primeira de uma série de entrevistas com alguns dos fundadores da LCI, Liga Comunista Internacionalista, de que o PSR é herdeiro.
A abrir a série, uma "amena cavaqueira" entre dois insuportáveis marretas: Heitor de Sousa, entrevistador e João Cabral Fernandes, entrevistado. O Miguel Pérez também participou na coisa.
Apesar da entrevista não trazer nada de novo àqueles que já conhecem a história da fundação das correntes trotskistas em Portugal, trás tudo de novo àqueles que ignoram a génese do mais interessante movimento político da esquerda portuguesa no pós 25 de Abril, a LCI/PRT/PSR. Aos primeiros, não trazendo novidades, aviva-lhes a memória, que como sabemos não costuma ser de elefante. Como disse a Eduarda Dionísio "A falta de memória é a doença senil da democracia". Esta entrevista é uma espécie de aspirinazinha de combate ao esquecimento.
Alguns extractos:
"O fundamental para qualquer acção política é o programa”
[...]
Como é que entras em contacto com uma visão do mundo, a trotskista, numa altura em que é fácil calcular a dificuldade de defender pontos de vista em confronto com os do PCP?
A crítica aos países de Leste teve uma importância muito grande no meu percurso. Nunca achei que a Revolução Húngara de 1956 fosse uma revolução de direita. E o mesmo em relação aos acontecimentos de Berlim Oriental de 1953.
É nesta altura das lutas estudantis que descubro a grande coerência de pensamento de Trotski, e me identifico com a sua figura de perseguido. Foi em 67, mais ou menos, que o José Manuel Viegas me emprestou o Programa da Oposição de Esquerda, entre outros, e também algumas obras de Deutscher. Foi uma verdadeira paixão de juventude. Atraiu-me do pensamento de Trotski a sua amplidão. Tratava de questões militares, da arte, da burocracia, da degenerescência dos regimes políticos, do internacionalismo, dos fundamentos da igualdade e do socialismo.
Isto prende-se com o papel do indivíduo, eu sempre dei muita importância à liberdade. A trilogia da Revolução Francesa não pode ficar de fora do programa da revolução actual. A liberdade deve estar ligada aos problemas de organização económica, social, etc.
[...]
Na história da LCI existe o antecedente dos Grupos de Acção Comunista, que fazem um trabalho político no início da década de 70. Podes falar disso, e de como se dá o salto da intervenção na Universidade para uma acção mais abrangente?
Os GAC surgem em 1971, na base da luta estudantil e contra a guerra colonial, e também no desenvolvimento de acções de apoio às lutas dos trabalhadores. O GAC do Porto surge de algumas faculdades, a partir do trabalho do Heitor de Sousa e do Francisco Sardo. O Sardo era um coimbrão que faz a ligação ao Porto. Eu vou para Lisboa e faço entrismo num grupo trotskista ligado à tendência de Gerry Healy. Um dos elementos deste grupo era o Luís Zuzarte, ao qual se juntam depois os liceais do D. Pedro V e do P. António Vieira. Quando o 25 de Abril se deu, nos éramos um grupo de fedelhos, de fedelhos mesmo, sem tradição nenhuma que tinha a ousadia de por em causa os conceitos existentes, toda a história e os mártires do PCP como valores obsoletos em si mesmo. Isto num país onde não existia uma cultura operária anti-estalinista democrática e unitária, como existe na França. Mas tínhamos uma orientação muito abrangente que nos permitia trabalhar em conjunto com gente do PC, com gente que depois viria a criar o MES. Fizemos acções de rua contra a guerra colonial na Graça e em Benfica, e na Cova da Piedade, nesta base de colaboração com pessoas de outras tendências.
Como se faz a ligação destes grupos à IV Internacional? E qual é o atractivo desta tendência, num quadro onde existiam outras correntes de extrema esquerda poderosas, tanto trotskistas como de tendência m-l?
A ligação a IV Internacional surge nas viagens feitas à França. Eu fiz uma com a intenção de contactar as três principais tendências trotskistas: a do Secretariado Unificado, a OCI e a Lutte Ouvrière. Com esta última não consegui contactar. Em relação à OCI (tendência Lambert) que tinha uma organização juvenil lembro-me dum recebimento cheio de "charme", com champanhe e tudo! Não gostei muito daquilo, embora tenha aproveitado para beber o champanhe. O primeiro contacto com a LCR foi feito na viagem do Francisco Sardo, que assistiu a um comício de solidariedade com o Vietname. Atraia-nos a teoria dos três sectores da revolução: a revolução colonial, os países desenvolvidos e os países do Leste. Nesta altura desenvolviam-se grandes lutas operárias na Polónia contra o totalitarismo estalinista. Mais tarde o golpe de Pinochet no Chile foi mais um motivo de discussão, onde se defrontavam uma visão reformista e outra revolucionária daqueles acontecimentos.
Atraiu-me na IV Internacional a superioridade teórica e prática, que se baseava no legado de uma tradição que estava presente, e que estava em contacto com a criatividade dos movimentos estudantis do momento. A capacidade de realização de acções unitárias, como por exemplo as de apoio à luta do Vietname, também foi algo de muito interessante.
A trinta anos de distância, quais são na tua opinião as marcas distintivas da LCI e da corrente trotskista face à restante esquerda revolucionária que se desenvolveu na altura? Qual é para ti a maior contribuição do trotskismo para uma esquerda revolucionária em Portugal?
A LCI criou-se na luta contra o fascismo, unindo a teoria à prática. Na frente estudantil, que vai ser o campo de acção preferencial nesta fase, a falta de uma tradição faz que perante a UEC, e perante o MRPP e outros grupos, a LCI adquira um aspecto um tanto esotérico, dando grande importância à teoria e à discussão interna. Isso acabou por ser uma vantagem posteriormente, permitindo que as decisões fossem tomadas após debates muito abertos. Aquando do II Congresso da LCI em 1975, que decide a integração da Liga na FUP/FUR, formam-se quatro tendências e são apresentados 46 textos para a discussão! Creio que isto é algo muito importante mesmo hoje, a garantia da democracia interna e a tomada de decisões em conjunto, após o confronto de perspectivas diversas.
De qualquer maneira o grupo principal da LCI no seu início estava em Coimbra, era um grupo não abertamente trotskista na sua origem mas radical, e mais contestatário se quisermos. Depois o grupo estende-se para o Porto e Lisboa, colaborando com outros grupos e tendências, e crescendo com a adesão de mais pessoas depois do 25 de Abril.
[...]
Quais são as tarefas duma esquerda que pretenda transformar o mundo nos nossos dias? Como é que alguém que há trinta anos tinha uma intervenção política vê o mundo neste início de século?
Eu penso que ainda não ultrapassamos a barbárie do estalinismo, do "universo concentracionário", e ainda estamos a pagar as consequências. E se não formos capazes de criticar isso, de termos uma visão clara do que é uma forma de sociedade alternativa, vamos ser uma presa fácil para os críticos da direita. Eu creio que estamos a perder muito tempo nisso, e é algo essencial para poder criar uma alternativa hoje.
O que é que representa hoje a ocupação americana do Iraque? O que é que representa o governo Durão Barroso? O que é que representa o PS? Penso que o fundamental para qualquer acção política é o programa, o projecto de sociedade que se defende. E tão importante como o programa genético de uma pessoa, sem ele não somos capazes de evoluir e de nos transformar. Este programa hoje tem de ter características que antes não tinha. Ser de esquerda em 2003 significa defender transportes públicos, cidades saudáveis, liberdades individuais mais profundas sem chocar com os direitos do colectivo.
A entrevista finaliza dando ao João Cabral a oportunidade de dizer bem do Bloco de Esquerda:
[...]
Hoje o PSR, que é herdeiro da LCI, é parte integrante do Bloco de Esquerda. Como avalias essa integração e o papel do BE na vida política?
Acho que valeu a pena. O BE nasce do luto feito pelo desfasamento e fragmentação da esquerda, e a partir daí é preciso elaborar um programa e alternativas. Creio que isso é um passo em frente. E que isto venha daquele grupo de fedelhos é muito aliciante. Sempre somos filhos de alguma coisa, não é?
Para ler toda a entrevista clique aqui
Ainda sobre os 30 anos do PSR, Heitor de Sousa deixa umas palavrinhas:
30 anos
sem desistir
O Combate inicia, neste número, um conjunto de entrevistas d@s camaradas que estiveram na origem e desenvolvimento da chamada "corrente trotskista" em Portugal, nos últimos 30 anos. Aproveitando as próximas comemorações dos 30 anos da fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI), em Dezembro de 1973, em Peniche, aproveitámos esse pretexto para ir ter com militantes que, em várias décadas de actividade, não desistiram e que, pelo seu envolvimento pessoal, deram expressão concreta a processos organizativos diversos, mas que, no final, serviram para manter vivas algumas das ideias e valores mais emblemáticos do "trotskismo" em Portugal.
Em geral, para "nós" , o "trotskismo" sempre teve aspas. Não porque nos incomodemos em reivindicar o fundamental da herança do pensamento político de Leon Trotski, expresso em inúmeros combates políticos que manteve ao longo da sua vida. Mas, sobretudo, porque sempre entendemos essa "herança política", como um contributo mais para a formação do pensamento marxista revolucionário.
É verdade que, frequentemente, se apelidou de "trotskistas" tod@s @s que, a nível da URSS ou no mundo inteiro, se opuseram a tudo o que marcou a prática política estalinista nesses anos de "chumbo" da revolução soviética. Nessa medida, o ismo que se costuma acrescentar aos que participaram, com Trotski, na formação da oposição de esquerda na URSS, não incomoda, especialmente se encarada como oposição ao estalinismo, quer na URSS, quer em todos os outros Partidos Comunistas existentes no mundo.
Mas, para além desse período da história do pensamento político revolucionário, muitos outros períodos e figuras políticas tiveram, igualmente, um papel de destaque na formação do pensamento político marxista. Para ele, vári@s foram @s que, pela teoria ou pela prática, foram dando corpo ao marxismo como praxis revolucionária: Marx, Engels, Lenine, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, G.Luckács, Che Guevara, a revolução russa, a revolução alemã, a revolução chinesa, a revolução cubana, etc, etc. Face a nenhuma daquelas personagens caímos, alguma vez, na tentação de identificar uma "linhagem de pureza" do marxismo. Daí, ao culto da personalidade sobre alguns dos "iluminados" nos escaparates da revolução é um pequeno passo, que sempre rejeitámos, que nunca demos, mas em que muitos caíram, sobretudo no século passado. É precisamente nisto que se fundamenta a nossa "reserva mental" face à tentação de aplicar a esta corrente de pensamento o epíteto redutor de "trotskistas". [...]
Até amanhã camaradas.
O PSR, Partido Socialista Revolucionário, comemora 30 anos de vida. Está, por assim dizer de parabéns. Pois parabéns! Ao que parece vai organizar um jantarinho para comemorar o evento. É na Voz do Operário, Sábado, 20 de Dezembro. Não basta aparecer é preciso comprar uns bilhetes primeiro. Os interessados e interessadas, devem telefonar para o 218864643.
Leituras 2
Na edição de Outubro publica-se a primeira de uma série de entrevistas com alguns dos fundadores da LCI, Liga Comunista Internacionalista, de que o PSR é herdeiro.
A abrir a série, uma "amena cavaqueira" entre dois insuportáveis marretas: Heitor de Sousa, entrevistador e João Cabral Fernandes, entrevistado. O Miguel Pérez também participou na coisa.
Apesar da entrevista não trazer nada de novo àqueles que já conhecem a história da fundação das correntes trotskistas em Portugal, trás tudo de novo àqueles que ignoram a génese do mais interessante movimento político da esquerda portuguesa no pós 25 de Abril, a LCI/PRT/PSR. Aos primeiros, não trazendo novidades, aviva-lhes a memória, que como sabemos não costuma ser de elefante. Como disse a Eduarda Dionísio "A falta de memória é a doença senil da democracia". Esta entrevista é uma espécie de aspirinazinha de combate ao esquecimento.
Alguns extractos:
"O fundamental para qualquer acção política é o programa”
[...]
Como é que entras em contacto com uma visão do mundo, a trotskista, numa altura em que é fácil calcular a dificuldade de defender pontos de vista em confronto com os do PCP?
A crítica aos países de Leste teve uma importância muito grande no meu percurso. Nunca achei que a Revolução Húngara de 1956 fosse uma revolução de direita. E o mesmo em relação aos acontecimentos de Berlim Oriental de 1953.
É nesta altura das lutas estudantis que descubro a grande coerência de pensamento de Trotski, e me identifico com a sua figura de perseguido. Foi em 67, mais ou menos, que o José Manuel Viegas me emprestou o Programa da Oposição de Esquerda, entre outros, e também algumas obras de Deutscher. Foi uma verdadeira paixão de juventude. Atraiu-me do pensamento de Trotski a sua amplidão. Tratava de questões militares, da arte, da burocracia, da degenerescência dos regimes políticos, do internacionalismo, dos fundamentos da igualdade e do socialismo.
Isto prende-se com o papel do indivíduo, eu sempre dei muita importância à liberdade. A trilogia da Revolução Francesa não pode ficar de fora do programa da revolução actual. A liberdade deve estar ligada aos problemas de organização económica, social, etc.
[...]
Na história da LCI existe o antecedente dos Grupos de Acção Comunista, que fazem um trabalho político no início da década de 70. Podes falar disso, e de como se dá o salto da intervenção na Universidade para uma acção mais abrangente?
Os GAC surgem em 1971, na base da luta estudantil e contra a guerra colonial, e também no desenvolvimento de acções de apoio às lutas dos trabalhadores. O GAC do Porto surge de algumas faculdades, a partir do trabalho do Heitor de Sousa e do Francisco Sardo. O Sardo era um coimbrão que faz a ligação ao Porto. Eu vou para Lisboa e faço entrismo num grupo trotskista ligado à tendência de Gerry Healy. Um dos elementos deste grupo era o Luís Zuzarte, ao qual se juntam depois os liceais do D. Pedro V e do P. António Vieira. Quando o 25 de Abril se deu, nos éramos um grupo de fedelhos, de fedelhos mesmo, sem tradição nenhuma que tinha a ousadia de por em causa os conceitos existentes, toda a história e os mártires do PCP como valores obsoletos em si mesmo. Isto num país onde não existia uma cultura operária anti-estalinista democrática e unitária, como existe na França. Mas tínhamos uma orientação muito abrangente que nos permitia trabalhar em conjunto com gente do PC, com gente que depois viria a criar o MES. Fizemos acções de rua contra a guerra colonial na Graça e em Benfica, e na Cova da Piedade, nesta base de colaboração com pessoas de outras tendências.
Como se faz a ligação destes grupos à IV Internacional? E qual é o atractivo desta tendência, num quadro onde existiam outras correntes de extrema esquerda poderosas, tanto trotskistas como de tendência m-l?
A ligação a IV Internacional surge nas viagens feitas à França. Eu fiz uma com a intenção de contactar as três principais tendências trotskistas: a do Secretariado Unificado, a OCI e a Lutte Ouvrière. Com esta última não consegui contactar. Em relação à OCI (tendência Lambert) que tinha uma organização juvenil lembro-me dum recebimento cheio de "charme", com champanhe e tudo! Não gostei muito daquilo, embora tenha aproveitado para beber o champanhe. O primeiro contacto com a LCR foi feito na viagem do Francisco Sardo, que assistiu a um comício de solidariedade com o Vietname. Atraia-nos a teoria dos três sectores da revolução: a revolução colonial, os países desenvolvidos e os países do Leste. Nesta altura desenvolviam-se grandes lutas operárias na Polónia contra o totalitarismo estalinista. Mais tarde o golpe de Pinochet no Chile foi mais um motivo de discussão, onde se defrontavam uma visão reformista e outra revolucionária daqueles acontecimentos.
Atraiu-me na IV Internacional a superioridade teórica e prática, que se baseava no legado de uma tradição que estava presente, e que estava em contacto com a criatividade dos movimentos estudantis do momento. A capacidade de realização de acções unitárias, como por exemplo as de apoio à luta do Vietname, também foi algo de muito interessante.
A trinta anos de distância, quais são na tua opinião as marcas distintivas da LCI e da corrente trotskista face à restante esquerda revolucionária que se desenvolveu na altura? Qual é para ti a maior contribuição do trotskismo para uma esquerda revolucionária em Portugal?
A LCI criou-se na luta contra o fascismo, unindo a teoria à prática. Na frente estudantil, que vai ser o campo de acção preferencial nesta fase, a falta de uma tradição faz que perante a UEC, e perante o MRPP e outros grupos, a LCI adquira um aspecto um tanto esotérico, dando grande importância à teoria e à discussão interna. Isso acabou por ser uma vantagem posteriormente, permitindo que as decisões fossem tomadas após debates muito abertos. Aquando do II Congresso da LCI em 1975, que decide a integração da Liga na FUP/FUR, formam-se quatro tendências e são apresentados 46 textos para a discussão! Creio que isto é algo muito importante mesmo hoje, a garantia da democracia interna e a tomada de decisões em conjunto, após o confronto de perspectivas diversas.
De qualquer maneira o grupo principal da LCI no seu início estava em Coimbra, era um grupo não abertamente trotskista na sua origem mas radical, e mais contestatário se quisermos. Depois o grupo estende-se para o Porto e Lisboa, colaborando com outros grupos e tendências, e crescendo com a adesão de mais pessoas depois do 25 de Abril.
[...]
Quais são as tarefas duma esquerda que pretenda transformar o mundo nos nossos dias? Como é que alguém que há trinta anos tinha uma intervenção política vê o mundo neste início de século?
Eu penso que ainda não ultrapassamos a barbárie do estalinismo, do "universo concentracionário", e ainda estamos a pagar as consequências. E se não formos capazes de criticar isso, de termos uma visão clara do que é uma forma de sociedade alternativa, vamos ser uma presa fácil para os críticos da direita. Eu creio que estamos a perder muito tempo nisso, e é algo essencial para poder criar uma alternativa hoje.
O que é que representa hoje a ocupação americana do Iraque? O que é que representa o governo Durão Barroso? O que é que representa o PS? Penso que o fundamental para qualquer acção política é o programa, o projecto de sociedade que se defende. E tão importante como o programa genético de uma pessoa, sem ele não somos capazes de evoluir e de nos transformar. Este programa hoje tem de ter características que antes não tinha. Ser de esquerda em 2003 significa defender transportes públicos, cidades saudáveis, liberdades individuais mais profundas sem chocar com os direitos do colectivo.
A entrevista finaliza dando ao João Cabral a oportunidade de dizer bem do Bloco de Esquerda:
[...]
Hoje o PSR, que é herdeiro da LCI, é parte integrante do Bloco de Esquerda. Como avalias essa integração e o papel do BE na vida política?
Acho que valeu a pena. O BE nasce do luto feito pelo desfasamento e fragmentação da esquerda, e a partir daí é preciso elaborar um programa e alternativas. Creio que isso é um passo em frente. E que isto venha daquele grupo de fedelhos é muito aliciante. Sempre somos filhos de alguma coisa, não é?
Para ler toda a entrevista clique aqui
Ainda sobre os 30 anos do PSR, Heitor de Sousa deixa umas palavrinhas:
30 anos
sem desistir
O Combate inicia, neste número, um conjunto de entrevistas d@s camaradas que estiveram na origem e desenvolvimento da chamada "corrente trotskista" em Portugal, nos últimos 30 anos. Aproveitando as próximas comemorações dos 30 anos da fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI), em Dezembro de 1973, em Peniche, aproveitámos esse pretexto para ir ter com militantes que, em várias décadas de actividade, não desistiram e que, pelo seu envolvimento pessoal, deram expressão concreta a processos organizativos diversos, mas que, no final, serviram para manter vivas algumas das ideias e valores mais emblemáticos do "trotskismo" em Portugal.
Em geral, para "nós" , o "trotskismo" sempre teve aspas. Não porque nos incomodemos em reivindicar o fundamental da herança do pensamento político de Leon Trotski, expresso em inúmeros combates políticos que manteve ao longo da sua vida. Mas, sobretudo, porque sempre entendemos essa "herança política", como um contributo mais para a formação do pensamento marxista revolucionário.
É verdade que, frequentemente, se apelidou de "trotskistas" tod@s @s que, a nível da URSS ou no mundo inteiro, se opuseram a tudo o que marcou a prática política estalinista nesses anos de "chumbo" da revolução soviética. Nessa medida, o ismo que se costuma acrescentar aos que participaram, com Trotski, na formação da oposição de esquerda na URSS, não incomoda, especialmente se encarada como oposição ao estalinismo, quer na URSS, quer em todos os outros Partidos Comunistas existentes no mundo.
Mas, para além desse período da história do pensamento político revolucionário, muitos outros períodos e figuras políticas tiveram, igualmente, um papel de destaque na formação do pensamento político marxista. Para ele, vári@s foram @s que, pela teoria ou pela prática, foram dando corpo ao marxismo como praxis revolucionária: Marx, Engels, Lenine, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, G.Luckács, Che Guevara, a revolução russa, a revolução alemã, a revolução chinesa, a revolução cubana, etc, etc. Face a nenhuma daquelas personagens caímos, alguma vez, na tentação de identificar uma "linhagem de pureza" do marxismo. Daí, ao culto da personalidade sobre alguns dos "iluminados" nos escaparates da revolução é um pequeno passo, que sempre rejeitámos, que nunca demos, mas em que muitos caíram, sobretudo no século passado. É precisamente nisto que se fundamenta a nossa "reserva mental" face à tentação de aplicar a esta corrente de pensamento o epíteto redutor de "trotskistas". [...]
Até amanhã camaradas.