domingo, novembro 09, 2003
Leituras: "Desenhos Secretos" de Serguei Mikhailovitch Eisenstein
Diário de Imagens "Saudades de Antero
Sobre Sua Majestade Eisenstein, o medo de ser o que somos
A Quetzal Editores acaba de publicar “Os Desenhos Secretos” de “Sua Majestade” Eisenstein.
Jean-Claude Marcadé, abre os textos de introdução ao livro com as seguintes palavras:
“O autor do Couraçado Potemkine foi um génio poderoso, cuja envergadura faz dele, no nosso século [XX], um homem do Renascimento. A sua obra contraditória tem a inspiração da epopeia, com a qual partilha o gosto do maravilhoso, a luta das forças do Bem contra as do Mal, a mitificação dos seres e do mundo. Tendo vivido a época exaltante da Revolução de 1917, que tinha por objectivo transfigurar a sociedade e libertá-la de todas as alienações provocadas pelo capitalismo. Serguei Mikhailovitch Eisenstein (Sua Majestade Eisenstein), conheceu, durante a primeira metade dos anos 20, momentos de entusiasmo romântico, de liberdade de expressão, de impulso criador, mas também as maquinações do aparelho ditatorial e inquisitorial instalado pouco a pouco pelo Partido Comunista da URSS, a censura e o terror estalinista dos anos 30, a que sobreviveu sem ser enviado para o goulag ou fuzilado, como aconteceu ao seu mestre Meyerhold, embora bem se possa imaginar que contribuíram para a sua morte prematura, causada por um enfarte, em 1948, aos 50 anos de idade.
Eisenstein foi encenador de teatro, pintor de cenários teatrais, cineasta – um dos maiores que alguma vez existiram – teórico, crítico e desenhador. Apesar destas múltiplas formas de expressão, continua, enquanto criador, uma personagem enigmática, não só porque muito do que produziu permanece inédito, mas também porque nunca se abriu totalmente. Através deste ou daquele traço da sua arte apenas é possível entrever algumas facetas da personagem, sem nunca se estar certo de a captar na sua “verdade”, ou pelo menos na sua autenticidade. Eisenstein escapa ao nosso desejo, sem dúvida impúdico de o conhecer melhor.”
Mas porque chamamos “secretos” a estes desenhos?
Porque são desenhos eróticos?
Porque ele os quis esconder do olhar alheio?
Porque quando foram feitos escapavam ao dogma moralista do estado burocrático de Estaline?
Porque são considerados projecções do inconsciente, passível de interpretações freudianas?
Porque temos medo de reconhecer neles os “segredos” dos nossos inconscientes, também eles passíveis de interpretações psicanalíticas?
Porque nos neles se descobre a homossexualidade do autor?
Talvez todas estas razões sejam boas razões para que estes desenhos de Eisenstein sejam chamados de secretos. Talvez até seja só uma questão de marketing, de chamar a atenção de potenciais compradores para o livro.
O que me leva a reflectir sobre esta série de desenhos e sobre o secretismo da sua realização, não é a tentativa de descobrir entre as linhas da sua expressão, significações políticas e psicanalíticas da personalidade de Eisenstein, muito menos a delicia de contemplar uma espécie de “pornografia intelectual”.
O que acho extraordinário, é confirmar que cada pessoa tem efectivamente um terreno secreto na sua existência, secreto até para si mesma, a que tem direito porque é parte integrante da sua personalidade, do seu ser. Não falo de secretismos eróticos ou de fetiches estranhos. Falo daquilo que em nós é desconhecido. Do que em nós é insondável. Daquilo que não sabendo em nós se exprime nos traços das nossas acções.
Esse terreno reservado da nossa existência é essencial para sermos completos, íntegros. É o lugar onde em nós se revela a complexidade da vida e da nossa passagem por ela.
Por isso, todos nós, desenhamos secretamente as nossas descobertas mais íntimas sobre o papel do quotidiano. Ainda assim este é um direito que não nos é reconhecido. Vivemos tempos de devassa permanente. Todos parecem gozar com a devassa do próximo. Todos esses terrenos secretos, a um olhar externo, são necessariamente distorcidos e interpretados como arma de arremesso. São os tempos da impossibilidade da descoberta interior. Do medo das “interpretações” dos outros. Esse moralismo estalinista, católico romano, inquisitorial, venceu finalmente, e está no poder mais poderoso dos poderes. O poder de ter os outros na mão segurando-os pela culpa. Pior, pelo medo de se ser declarado culpado. E aos olhos deste sistema, todos sem excepção, podemos ser declarados culpados de algo. Sobretudo, culpados de ser o que somos.
Sobre Sua Majestade Eisenstein, o medo de ser o que somos
A Quetzal Editores acaba de publicar “Os Desenhos Secretos” de “Sua Majestade” Eisenstein.
Jean-Claude Marcadé, abre os textos de introdução ao livro com as seguintes palavras:
“O autor do Couraçado Potemkine foi um génio poderoso, cuja envergadura faz dele, no nosso século [XX], um homem do Renascimento. A sua obra contraditória tem a inspiração da epopeia, com a qual partilha o gosto do maravilhoso, a luta das forças do Bem contra as do Mal, a mitificação dos seres e do mundo. Tendo vivido a época exaltante da Revolução de 1917, que tinha por objectivo transfigurar a sociedade e libertá-la de todas as alienações provocadas pelo capitalismo. Serguei Mikhailovitch Eisenstein (Sua Majestade Eisenstein), conheceu, durante a primeira metade dos anos 20, momentos de entusiasmo romântico, de liberdade de expressão, de impulso criador, mas também as maquinações do aparelho ditatorial e inquisitorial instalado pouco a pouco pelo Partido Comunista da URSS, a censura e o terror estalinista dos anos 30, a que sobreviveu sem ser enviado para o goulag ou fuzilado, como aconteceu ao seu mestre Meyerhold, embora bem se possa imaginar que contribuíram para a sua morte prematura, causada por um enfarte, em 1948, aos 50 anos de idade.
Eisenstein foi encenador de teatro, pintor de cenários teatrais, cineasta – um dos maiores que alguma vez existiram – teórico, crítico e desenhador. Apesar destas múltiplas formas de expressão, continua, enquanto criador, uma personagem enigmática, não só porque muito do que produziu permanece inédito, mas também porque nunca se abriu totalmente. Através deste ou daquele traço da sua arte apenas é possível entrever algumas facetas da personagem, sem nunca se estar certo de a captar na sua “verdade”, ou pelo menos na sua autenticidade. Eisenstein escapa ao nosso desejo, sem dúvida impúdico de o conhecer melhor.”
Mas porque chamamos “secretos” a estes desenhos?
Porque são desenhos eróticos?
Porque ele os quis esconder do olhar alheio?
Porque quando foram feitos escapavam ao dogma moralista do estado burocrático de Estaline?
Porque são considerados projecções do inconsciente, passível de interpretações freudianas?
Porque temos medo de reconhecer neles os “segredos” dos nossos inconscientes, também eles passíveis de interpretações psicanalíticas?
Porque nos neles se descobre a homossexualidade do autor?
Talvez todas estas razões sejam boas razões para que estes desenhos de Eisenstein sejam chamados de secretos. Talvez até seja só uma questão de marketing, de chamar a atenção de potenciais compradores para o livro.
O que me leva a reflectir sobre esta série de desenhos e sobre o secretismo da sua realização, não é a tentativa de descobrir entre as linhas da sua expressão, significações políticas e psicanalíticas da personalidade de Eisenstein, muito menos a delicia de contemplar uma espécie de “pornografia intelectual”.
O que acho extraordinário, é confirmar que cada pessoa tem efectivamente um terreno secreto na sua existência, secreto até para si mesma, a que tem direito porque é parte integrante da sua personalidade, do seu ser. Não falo de secretismos eróticos ou de fetiches estranhos. Falo daquilo que em nós é desconhecido. Do que em nós é insondável. Daquilo que não sabendo em nós se exprime nos traços das nossas acções.
Esse terreno reservado da nossa existência é essencial para sermos completos, íntegros. É o lugar onde em nós se revela a complexidade da vida e da nossa passagem por ela.
Por isso, todos nós, desenhamos secretamente as nossas descobertas mais íntimas sobre o papel do quotidiano. Ainda assim este é um direito que não nos é reconhecido. Vivemos tempos de devassa permanente. Todos parecem gozar com a devassa do próximo. Todos esses terrenos secretos, a um olhar externo, são necessariamente distorcidos e interpretados como arma de arremesso. São os tempos da impossibilidade da descoberta interior. Do medo das “interpretações” dos outros. Esse moralismo estalinista, católico romano, inquisitorial, venceu finalmente, e está no poder mais poderoso dos poderes. O poder de ter os outros na mão segurando-os pela culpa. Pior, pelo medo de se ser declarado culpado. E aos olhos deste sistema, todos sem excepção, podemos ser declarados culpados de algo. Sobretudo, culpados de ser o que somos.