segunda-feira, novembro 03, 2003
Juntos, separadamente - PiM-Teatro - Évora
Para o João e para a Alexandra.
Évora, 3 de Novembro de 2003
A primeira memória que tenho do Teatro PiM, remonta a uma noite, dezembro talvez, de 1993. Entrei na casa da Rua da Fontes, na Mouraria de Évora, casa do João (Sérgio Palma) e da Alexandra (Espiridião) e primeira morada do Pim-Teatro. A Alexandra estava encafuada numa arrecadação, submersa em tecidos, cozendo, paciente, uma cortina para aquele que seria o primeiro espectáculo da companhia, "A Menina dos Fósforos". Começava aí o Grupo Pim (depois Teatro PiM e finalmente Pim-Teatro. As alterações são significativas, mas isso fica para mais tarde). O nome Pim, remetia ao Manifesto Anti-Dantas. Foi um grito de libertação, de parto, de descoberta, de alegria, de medo, de coragem. Foi um grito.
Em 1995 a formou-se a PiMTAí-Associação Cultural. Outro grito foi dado. O sonho era envolver gente, procurar interesses comuns entre aqueles que tinham coisas para dizer e força para as fazer.
Seguiram-se mais sonhos. Muitas, muitas desilusões. Mais sonhos e trabalho. Muito trabalho. Todos os dias. Todas as noites. Talvez algumas pessoas tenham dificuldade em saber o que significa viver em fraternidade. Quem passou pelo Teatro PiM durante esses tempos sabe exactamente o que isso significa. A cada minuto nascia um desafio, um conflito, uma solução, um beijo, uma dentada, um espectáculo, um cartaz. Só duas coisas eram permitidas, parar e recomeçar. A alegria de ver nascida uma coisa, por muito imperfeita que fosse, era sempre um estímulo para reflectir, corrigir, criar e recriar. No Teatro Pim tocava-se nas coisas, nunca se optava pela prática imunda do retoque. Destruia-se o que havia para destruir e fazia-se nascer do caos a beleza da descoberta permanente.
Esta companhia nunca foi um idílio de relações. Os irmãos magoam-se sempre muito, mas porque são irmãos, há laços que, mais fortes que tudo, fazem sempre renascer o fogo da vontade de abraçar. O conflito era a fricção necessária para o avanço. A arte é um mundo de avanços e retrocessos. Afirmações e humildade. Essa era a dimenção dos nossos conflitos.
Não nos sentiamos proprietários de nada, não queriamos ser proprietários de nada. Queriamos agir, comunicar, caminhar. Existiamos num espaço hostil. Habitávamos uma cidade com um governo podre, burocrático, lamacento. Cheio de compadrios. Uma cidade parada e cinzenta. Bastava querer existir à margem de uma ditadurazinha de mediocres senhores que se diziam comunistas e que mais não foram que guarda livros de uma espécie de escritório na falência, para que as mais incríveis agressões mostrassem os dentes.
Quisemos provar que o teatro não era a manipulação de pessoas-marionetas como era tradição em Évora. Quisemos provar que o exercicio da cidadania não eram os convivios da jcp nem as campanhas eleitorais da cdu. É provámos.
Quisemos mostrar pelo exemplo que é possível estar vivo e acordado neste mar de invejas e desalentos. Enfrentámos o que havia para enfrentar. Ilegalidades. Insultos. Calúnias. Mostrámos que era possível fazer arte livremente. Colectivamente. Com a coragem de quem quer viver e ser feliz.
O Teatro Pim foi o mais importante acontecimento cultural desta cidade na última década, porque lutando pelo seu espaço, abriu espaço aos outros. Porque afirmando a sua forma de acção, permitiu que outros o fizessem igualmente. O Teatro PiM foi o percursor de uma mudança que ainda está longe de ser completa, mas que sem margem para dúvidas está a acontecer.
Sem um tostão fizeram-se festivais de teatro no meio de campo com centenas de pessoas a participar. Levaram-se espectáculos a sítios onde não se via teatro há décadas. A companhia declarou-se itinerante, quis sair e conhecer outras pessoas, outros sitios. Aprender, aprender sempre.
Quando a companhia fez cinco anos de existência, eu próprio, o João e Alexandra, redigimos um manifesto que assutou muita gente e nos colocou novamente na mira de insultos e cobardias, mas que trouxe o apoio de muitas pessoas. Dizia assim:
"Queremos a liberdade, ou seja, reclamamos para cada ser humano o direito e os meios para fazer tudo o que gostar e de fazer apenas aquilo de que gostar; de satisfazer inteiramente todas as suas necessidades, sem outros limites que não sejam as impossibilidades naturais e as necessidades dos nossos vizinhos igualmente respeitáveis. Queremos a liberdade e acreditamos que a sua existência é incompatível com o exercício de qualquer poder.
Declaração dos anarquistas no processo de Lyon, 1883
«hoje manifesto agora a felicidade já antes do jantar aqui!»
O problema é o PODER. Seja ele qual for. Sejam os nomeados ministros com gravata, sejam os eleitos presidentes em palácios, sejam os seus servis funcionários. O problema é o PODER. Seja a corrupção por ele criada, sejam os corruptos que o criam.
A sociedade, esta sociedade, não é para aproveitar, o que está verdadeiramente em causa é destrui-la, não é ter medo de a destruir. Não há vazio, não há papão anárquico que nos possa assustar, nada justifica a alimentação a pão-de-ló, com que diariamente alimentamos gordos burros burocratas em gabinetes-celas, onde se julgam livres os que nos cortam a liberdade.
A ruptura, a fricção que provoca a evolução, a gota de água que faz transbordar o copo que leva ao irreversível processo revolucionário que queremos para hoje, está nas mãos dos que nunca recusaram comprometer-se com a vida e com as consequências de estar vivo.
Ser permanentemente revolucionário, é o desafio que vale a pena lançar a todas as mulheres e a todos os homens, de todas as nações, que têm a ARTE como país comum.
PIM!”
Este foi o nosso propósito. E não é com nostalgia que hoje o leio. O que sinto é a convicção de ser o caminho certo que, infelizmente, se abandonou.
Logo a seguir vieram os subsídios. O “estatuto”. É o tempo do PiM-Teatro.
Se antes era a alegria de ver um cartaz impresso e a força de pela noite dentro o colar pelas paredes, reclamando o direito de estar junto das pessoas, mesmo que no dia seguinte nos obrigassem a os descolar (o que aconteceu), ou a alegria de ver um espectáculo montado pela mão de todos, depois …
Depois...
É preciso aprender a cuidar e respeitar as pessoas que caminham connosco.
Évora (será que é só Évora? Não creio) volta a necessitar de um espaço que rompa com a monotonia politicamente correcta que está instalada pela “democracia aberta” e “dialogante” em que nos querem fazer acreditar.
Pela minha parte é altura de voltar à estaca zero. De re-re-começar. Se este ano de 2003 tem sido o ano de todas as rupturas, que delas possa nascer a flor de uma nova esperança. Como se costuma dizer, menos que isso não vale a pena.
Ainda assim, pelo que aprendi, pelas pessoas que conheci, pelo trabalho que se desenvolveu, obrigado.
Évora, 3 de Novembro de 2003
A primeira memória que tenho do Teatro PiM, remonta a uma noite, dezembro talvez, de 1993. Entrei na casa da Rua da Fontes, na Mouraria de Évora, casa do João (Sérgio Palma) e da Alexandra (Espiridião) e primeira morada do Pim-Teatro. A Alexandra estava encafuada numa arrecadação, submersa em tecidos, cozendo, paciente, uma cortina para aquele que seria o primeiro espectáculo da companhia, "A Menina dos Fósforos". Começava aí o Grupo Pim (depois Teatro PiM e finalmente Pim-Teatro. As alterações são significativas, mas isso fica para mais tarde). O nome Pim, remetia ao Manifesto Anti-Dantas. Foi um grito de libertação, de parto, de descoberta, de alegria, de medo, de coragem. Foi um grito.
Em 1995 a formou-se a PiMTAí-Associação Cultural. Outro grito foi dado. O sonho era envolver gente, procurar interesses comuns entre aqueles que tinham coisas para dizer e força para as fazer.
Seguiram-se mais sonhos. Muitas, muitas desilusões. Mais sonhos e trabalho. Muito trabalho. Todos os dias. Todas as noites. Talvez algumas pessoas tenham dificuldade em saber o que significa viver em fraternidade. Quem passou pelo Teatro PiM durante esses tempos sabe exactamente o que isso significa. A cada minuto nascia um desafio, um conflito, uma solução, um beijo, uma dentada, um espectáculo, um cartaz. Só duas coisas eram permitidas, parar e recomeçar. A alegria de ver nascida uma coisa, por muito imperfeita que fosse, era sempre um estímulo para reflectir, corrigir, criar e recriar. No Teatro Pim tocava-se nas coisas, nunca se optava pela prática imunda do retoque. Destruia-se o que havia para destruir e fazia-se nascer do caos a beleza da descoberta permanente.
Esta companhia nunca foi um idílio de relações. Os irmãos magoam-se sempre muito, mas porque são irmãos, há laços que, mais fortes que tudo, fazem sempre renascer o fogo da vontade de abraçar. O conflito era a fricção necessária para o avanço. A arte é um mundo de avanços e retrocessos. Afirmações e humildade. Essa era a dimenção dos nossos conflitos.
Não nos sentiamos proprietários de nada, não queriamos ser proprietários de nada. Queriamos agir, comunicar, caminhar. Existiamos num espaço hostil. Habitávamos uma cidade com um governo podre, burocrático, lamacento. Cheio de compadrios. Uma cidade parada e cinzenta. Bastava querer existir à margem de uma ditadurazinha de mediocres senhores que se diziam comunistas e que mais não foram que guarda livros de uma espécie de escritório na falência, para que as mais incríveis agressões mostrassem os dentes.
Quisemos provar que o teatro não era a manipulação de pessoas-marionetas como era tradição em Évora. Quisemos provar que o exercicio da cidadania não eram os convivios da jcp nem as campanhas eleitorais da cdu. É provámos.
Quisemos mostrar pelo exemplo que é possível estar vivo e acordado neste mar de invejas e desalentos. Enfrentámos o que havia para enfrentar. Ilegalidades. Insultos. Calúnias. Mostrámos que era possível fazer arte livremente. Colectivamente. Com a coragem de quem quer viver e ser feliz.
O Teatro Pim foi o mais importante acontecimento cultural desta cidade na última década, porque lutando pelo seu espaço, abriu espaço aos outros. Porque afirmando a sua forma de acção, permitiu que outros o fizessem igualmente. O Teatro PiM foi o percursor de uma mudança que ainda está longe de ser completa, mas que sem margem para dúvidas está a acontecer.
Sem um tostão fizeram-se festivais de teatro no meio de campo com centenas de pessoas a participar. Levaram-se espectáculos a sítios onde não se via teatro há décadas. A companhia declarou-se itinerante, quis sair e conhecer outras pessoas, outros sitios. Aprender, aprender sempre.
Quando a companhia fez cinco anos de existência, eu próprio, o João e Alexandra, redigimos um manifesto que assutou muita gente e nos colocou novamente na mira de insultos e cobardias, mas que trouxe o apoio de muitas pessoas. Dizia assim:
"Queremos a liberdade, ou seja, reclamamos para cada ser humano o direito e os meios para fazer tudo o que gostar e de fazer apenas aquilo de que gostar; de satisfazer inteiramente todas as suas necessidades, sem outros limites que não sejam as impossibilidades naturais e as necessidades dos nossos vizinhos igualmente respeitáveis. Queremos a liberdade e acreditamos que a sua existência é incompatível com o exercício de qualquer poder.
Declaração dos anarquistas no processo de Lyon, 1883
«hoje manifesto agora a felicidade já antes do jantar aqui!»
O problema é o PODER. Seja ele qual for. Sejam os nomeados ministros com gravata, sejam os eleitos presidentes em palácios, sejam os seus servis funcionários. O problema é o PODER. Seja a corrupção por ele criada, sejam os corruptos que o criam.
A sociedade, esta sociedade, não é para aproveitar, o que está verdadeiramente em causa é destrui-la, não é ter medo de a destruir. Não há vazio, não há papão anárquico que nos possa assustar, nada justifica a alimentação a pão-de-ló, com que diariamente alimentamos gordos burros burocratas em gabinetes-celas, onde se julgam livres os que nos cortam a liberdade.
A ruptura, a fricção que provoca a evolução, a gota de água que faz transbordar o copo que leva ao irreversível processo revolucionário que queremos para hoje, está nas mãos dos que nunca recusaram comprometer-se com a vida e com as consequências de estar vivo.
Ser permanentemente revolucionário, é o desafio que vale a pena lançar a todas as mulheres e a todos os homens, de todas as nações, que têm a ARTE como país comum.
PIM!”
Este foi o nosso propósito. E não é com nostalgia que hoje o leio. O que sinto é a convicção de ser o caminho certo que, infelizmente, se abandonou.
Logo a seguir vieram os subsídios. O “estatuto”. É o tempo do PiM-Teatro.
Se antes era a alegria de ver um cartaz impresso e a força de pela noite dentro o colar pelas paredes, reclamando o direito de estar junto das pessoas, mesmo que no dia seguinte nos obrigassem a os descolar (o que aconteceu), ou a alegria de ver um espectáculo montado pela mão de todos, depois …
Depois...
É preciso aprender a cuidar e respeitar as pessoas que caminham connosco.
Évora (será que é só Évora? Não creio) volta a necessitar de um espaço que rompa com a monotonia politicamente correcta que está instalada pela “democracia aberta” e “dialogante” em que nos querem fazer acreditar.
Pela minha parte é altura de voltar à estaca zero. De re-re-começar. Se este ano de 2003 tem sido o ano de todas as rupturas, que delas possa nascer a flor de uma nova esperança. Como se costuma dizer, menos que isso não vale a pena.
Ainda assim, pelo que aprendi, pelas pessoas que conheci, pelo trabalho que se desenvolveu, obrigado.