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sábado, novembro 08, 2003

Chartres e Évora, no coração da Pedra Trabalhada 

Diário de Imagens "Saudades de Antero

“Dá-me uma ajuda ó médico das almas
Para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizer
[…]
José Mário Branco, “Carta a J.C.”, “Correspondências”, Lisboa 1990


Cena 1
Na pastelaria estavam quatro pessoas. Uma menina a comer um bolo de bolacha. Uma senhora a beber um licor amarelo. Um homem a tomar um café e um outro adiando o regresso a casa.

Cena 2
No jornal depositado no balcão anunciava-se a assinatura de um protocolo de geminação entre Évora e Chartres. O café cheirava a chocolate com avelãs.
Que quer dizer GEMINAÇÂO?
É o estado do que é duplo , do que é disposto aos pares.
A pergunta foi feita pelo homem que bebia o café ao que adiava o regresso a casa. A resposta foi dada pela mulher do licor, como se na boca o liquido se tivesse transformado em dicionário.
A menina acabou o bolo de bolacha.
O homem que queria adiar a caminhada para casa caminhou para casa.

Cena 3
Já debaixo de tecto, o homem acendeu velas e incenso.
Na sua caverna quis exorcizar o medo com o fogo e o fumo perfumado.
Comeu chocolate com avelãs.

Cena 4
Na caverna o seu único contacto com a existência de outros homens era o rádio. Ele nunca dizia rádio, dizia telefonia. Na caverna ele ouvia telefonia para saber que outros homens existem. Procurou nos seus livros e descobriu que Chartres fica a 88 km de Paris, que é habitada por 42.000 pessoas e que lá vivem cerca de 5.000 portugueses.

Cena 5
Chartres, Chartres… Évora e Chartres, Chartres e Évora - a cidade e o seu reflexo no espelho. A cidade e o seu duplo. Num dos livros encontrou um pequeno texto:
Neste mundo que julgamos conhecer, há ainda grandes viagens por fazer. Principalmente na Europa das catedrais e das igrejas da Idade Média.
Durante vários anos, partimos à descoberta da linguagem destes edifícios. Uma linguagem em forma de esculturas, de capiteis, de modilhões, de gárgulas, de misericórdias de estalas, de talha em madeira: em suma uma linguagem simbólica que anima a partir do interior a matéria trabalhada por artesãos conhecedores. […] Se esta arte nos fala hoje de uma forma mágica, é porque é a tradução de um pensamento simbólico. Um pensamento de que perdemos a chave – ou pelo menos, julgamos tê-la perdido – mas do qual pressentimos a importância vital, apesar dos períodos de obscurantismo que sucederam ao fim dos grandes estaleiros de obras de catedrais.
Existe uma Idade Média desconhecida ou, antes, uma Idade Média do desconhecido. É esta que vale a pena ser olhada mais de perto, porque este desconhecido está em nós próprios, é a chave da nossa serenidade e do nosso equilíbrio.
As esculturas medievais têm um significado e apresentam um sentido. Oferecem-se à vista sem contar, sem calcular. E sobretudo, a sua mensagem não é do passado, nem jamais será do passado, porque a Idade Média do símbolo não é a Idade Média do Tempo.[…]
As catedrais continuam presentes sobre a terra do Ocidente. Presentes porque tornam verdadeiramente actual a vida espiritual dos homens que as construíram. Presentes porque entramos nelas para dialogar com o seu ser simbólico, com «qualquer coisa» que é mais do que nós próprios e que, no entanto, está no interior de nós mesmos.
Olhos para ver, ouvidos para ouvir: estes são os «instrumentos» necessários para não sermos meros visitantes de edifícios mudos, mas antes «homens da catedral», questionadores infatigáveis, sedentos de Conhecimento.
A Idade Média das catedrais é actual, porque é real. De facto o que será mais real que esta vontade de viver o espírito, soberbamente incarnado na pedra? […] (in Christian Jacq, “A Mensagem dos Construtores de Catedrais”)


Cena 6
O homem saiu da caverna e andou até à catedral de Santa Maria de Évora.
Parou diante da fachada, olhando os rostos dos apóstolos esculpidos junto à entrada.
-Aqui está Évora, aqui está Chartres!
-Se descobrires para onde se dirigem os olhares destes apóstolos encontrarás os caminhos para Chartres. Se o conseguires, e partires, e lá chegares, estarás em Évora, como em Évora estarás sempre em Chartres. Basta-te penetrar o coração da pedra trabalhada de Santa Maria de Évora.

Cena 7
O homem chorou e pediu ajuda. Como fazer? Que combate combater?

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